Vivemos num tempo

... em que a sociedade europeia vive como uma muleta do mercado, o estado social agrilhoado ou mais ou menos desmantelado por uma ideologia capitalista liberal e que domina todas as horas dos nossos dias e a esquerda é sua refém. Como se não existisse qualquer outra formulação possível para a nossa vida colectiva: o correr dos dias como um sumidouro de toda a vontade de mudança.

A esquerda estaticista encontra-se na defensiva sem programa concreto, um projecto mobilizador ou perspectiva de esperança. Quando participa é quase sempre em nome de uma coerência tecnocrata ou ideológica ou então por uma putativa eficiência medeando o capital de um lado e os trabalhadores por conta de outrem do outro. É uma esquerda socialista apenas no nome.

Mas então que esquerda queremos e de que Esquerda precisa a Europa? Podemos nós construir as condições para uma Esquerda progressista e libertária?

Sim. Tenho certeza que sim desde que satisfeitas duas condições.

A primeira condição essencial é o internacionalismo, ou melhor, uma concepção trans-nacional de acções e políticas a desenvolver, ou a Esquerda se revitaliza como uma força Europeia ou desaparecerá de cena deixando apenas o seu nome naquilo que importante conquistou no passado e no que já passou.

Ou se une de modo a que faça nascer um espaço social europeu com base num sistema legislativo e de protecção social com políticas sociais comuns a todos os países e num desenvolvimento comum de objectivos ou será reduzida e obrigada a apoiar uma regressão social em cada país e suportará inevitavelmente, como se de um conveniente álibi precisasse, uma balança de pagamentos da direita.

A segunda é que a Esquerda Europeia deverá apresentar uma visão da sociedade que quer transcender e que objectivos quer atingir. Já não bastam os clássicos do costume: paz, liberdade, integridade e humanismo, igualdade de oportunidades e assim por diante.

A Esquerda Europeia tem ao seu alcance uma utopia concreta que pode mobilizar milhões de pessoas: a redução das horas de trabalho.

Uma redução concebida não como um instrumento tecnocrata de uma divisão mais justa do trabalho mas como um caminho para uma sociedade diferente que dará às pessoas mais tempo para fazerem o que quiserem.

Temos uma oportunidade histórica que nunca antes existiu e que não podemos desperdiçar: construir um modo de vida colectivo no qual cada um possa despender e usar o seu tempo naquilo que mais deseja e que este tempo tenha uma maior duração do que aquele que se gasta ao trabalhar. Dizem que a esquerda não tem um objectivo? Ora aqui está ele.

Tudo o resto segue depois disto.

Uma nova política do tempo, da duração do tempo aliás, e do que fazemos com ele que não seja um assunto lateral de uma qualquer luta sectária mas uma ideia humanista que transcenda as divisões sociais e que será do meu ponto de vista o objectivo mais importante num programa de um movimento politico que não se envergonha de reclamar a emancipação como seu principal objectivo.

Criado/Created: 23-07-2018 [18:24]

Última actualização/Last updated: 24-06-2020 [09:15]


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(c) Tiago Charters de Azevedo