Liberdade

Faz hoje 46 anos. 46 anos tem o dia em que festejamos a liberdade que temos e aquela que desejamos. E por isso hoje, para além daquela pela qual vivemos todos os dias e que queremos festejar, podemos falar daquela que não temos mas que devemos ter. Aquela que não temos é praticada pela censura, a que temos permite-nos falar sobre ela. A censura serve para controlar, a de hoje tem o mesmo objetivo que a do passado, funciona da mesma maneira, mas veste hoje outras roupas de vanguardismo oportunista.

Diferente mas tem o mesmo efeito, o de controlar a opinião pública, garantir a seguimento doutrinal da população para manter o poder estabelecido.

O Triunfo dos Porcos de Orwell tem sido muito citado nestes dias como ilustração da imposição do recolhimento epidémico a que fomos obrigados de modo conter a propagação do vírus, equivalendo-o ao regime totalitário Estalinista. Mais interessante para os tempos que vivemos é o prefácio que não chegou a ser publicado na 1ª edição. Fala-nos da censura em sociedades não totalitárias.

A formulação desta ideia segue os passos de Orwell nesse prefácio. Diz Orwell que as ideias não populares podem ser silenciadas e factos inconvenientes podem nunca ser relatados. Vemos isso todos os dias quando não chegam aos títulos de jornais as notícias que por mérito próprio lá deveriam estar. Não porque o governo ou qualquer autoridade tenham impedido a sua publicação mas porque existe um acordo tácito de que 'tal não iria acontecer' que esse facto não seria mencionado. No que toca à imprensa e nas redes sociais isso é fácil de perceber, temos diariamente essa sensação. Não é a primeira vez que se ouve afirmação que as redes sociais são lixo quando podem ser, e são episodicamente, um meio fundamental de proximidade, colaboração, abertura e transparência de democracia.

Este tipo de coisas não é um bom sintoma. Em particular porque ninguém deve ter esse poder de censura e não será por medo de persecuções legais mas por medo da opinião pública que essa informação não vê a luz do dia. E este é um assunto que não tem tido muita discussão nem a que merece entre nós.

Claro que não vivemos num estado totalitário e existe liberdade de expressão e de imprensa mas as restrições que existem à divulgação nos OCS de opiniões discurdantes do mainstream são em grande medida voluntárias.

Há sempre num dado momento uma ortodoxia em vigor, um corpo de ideias pelo qual se assume que todos os bem-pensantes e opinadores seguem e aceitam sem o questionar.

O paradoxo surge e é ainda afirmado na proposta que todas as opiniões devem ouvidas por muito impopulares ou anti-humanistas que sejam. O ressurgimento na comunicação social de ideias da extrema-direita mostra isso mesmo. A extrema-direita tem acesso aos títulos dos OCS pelo dever da informação mas não pelo direito ao contraditório nem à intolerância dos tolerantes. Parte dessa benevolência de tratamento deve-se ao facto de existir pouca vontade em perturbar diretamente essa ortodoxia estabelecida em vigor, a extrema-direita aproveita-se dela para depois mais tarde a recuperar em benefício próprio. Os ortodoxos vão na cantiga e partilham o jogo do apontar o dedo vejam-os-fascistas.

Mas o caso das opiniões discordantes nesta ortodoxia tem um tratamento completamente diferente e é silenciada com surpreendentemente eficiência. A uma opinião verdadeiramente fora de moda nunca é dada justa atenção nos jornais ou televisões. Particularmente em sociedades nas quais se tem liberdade e as populações não podem ser ameaçadas fisicamente. O controlo tem de ser subtil, os fazedores de opinião sabem disso e de arregimentar mentes. Numa sociedade onde a escolarização da população aumenta desde 74 é de uma constatação gritante o plano dos sacerdotes seculares em manter os lugares que sempre ocuparam e manter a mansidão média.

Neste momento o que é exigido à ortodoxia dominante é a admiração acrítica pelo poder económico, a admiração é concretizada tanto à esquerda como à direita numa actividade constante de manter os cidadãos desinformados, passivos e obedientes e que toma sempre novas concretizações. O episódio recente das propostas da abertura da economia na pandemia em tempo de restrições para salvar vidas é revelador da opinião veiculada por sacerdotes seculares nas TVs e artigos de opinião. Vivemos tempos especiais onde comunistas apelam à economia de mercado e liberais defendem a luta de classes.

Claro que ainda temos uma ou outra voz desalinhada de críticos mas pouco a pouco perderão o seu ímpeto e sistematicamente remetidos no resultado silencioso e inconsequente das suas críticas deixarão de aparecer.

Tanto as democracias mais capitalistas ou mais socialistas tomam como tácito este acordo. As pessoas normais porque não estão suficientemente interessadas nestas ideias, têm as suas vidas para viver, não estão para ser intolerantes acerca delas, têm vagamente a posição de que toda a gente tem direito à sua opinião e por isso são as próprias pessoas que sendo as guardiãs da liberdade que começam na teoria e na prática a despreza-la e a perdê-la .

Ao aceitar métodos que reconhecemos como totalitários pode em breve chegar o tempo em que serão usados contra nós.

Criado/Created: 24-04-2020 [21:37]

Última actualização/Last updated: 24-06-2020 [09:15]


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(c) Tiago Charters de Azevedo